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Aos 74 anos de idade, Victor Moreira não pára de produzir. |
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Estilista famoso na década de 60 e 70, o multiartista olindense Victor Moreira recebeu na última semana, em Fortaleza, o prêmio Dragão de Ouro, no Dragão Fashion, principal evento de moda da capital cearense e 3º maior evento de moda do Brasil, de 1º a 9 de abril. Foi acompanhado por sua sobrinha, Izabella Moreira de Lucena, que descobriu nos baús de Victor estampas inéditas que estavam há 40 anos escondidas em sua casa e transformou as peças em cartões e camisetas dentro do Projeto Li.Ter.Ato – Provocação Cultural, que já invadiu todo o Brasil, com pontos de vendas no Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro, além do Recife. Famoso também por sua contribuição á Sociedade Teatral de Fazenda Nova, o mês da Semana Santa parece que trouxe boas novas para Victor.
Victor Moreira (Olinda – 1934) é um dos ícones da história da arte pernambucana. Sua obra vem sendo estudada principalmente pelo caráter vanguardista que marcou e definiu tendências, especialmente entre as décadas de 60 e 70 e ganhou o mundo. Suas criações de moda conquistaram o Brasil em 1979, quando Constanza Pascolato descobriu Victor, que criou a pedido dela um único vestido para ser usado de seis maneiras diferentes e produziu uma matéria especial exclusiva publicada pela Revista Claudia, na edição de janeiro de 79.
Destacou-se como estilista, cenógrafo, figurinista, pintor e desenhista, além de ser fundador da Sociedade Teatral de Nova Jerusalém, criando cenários e figurinos para a Paixão de Cristo por cinco décadas, além de muitas outras peças teatrais, entre outros feitos. Mas o seu talento de estampador até hoje estava escondido no fundo de um belo baú, na sala da sua casa, em Olinda.
Não é metáfora, apesar de ser corriqueira nas fábulas a descoberta de grandes tesouros em baús, desta vez o fato se deu na vida real, cruamente, ao acaso, e belamente, fazendo da história do resgate também um pedacinho de arte. Depois de quase 40 anos silenciosas num baú que decora e encerra segredos na sala do artista olindense Victor Moreira, cerca de 200 placas originais de estampas inéditas foram resgatadas pela antropóloga e pesquisadora Izabella Moreira de Lucena, sobrinha de Victor, e vão se transformando em outros corpos, outros objetos, trabalhados para trazer à tona o talento que estava escondido.
Cada detalhe feito à mão, arte em que utilizou palitos de dente, velas, tudo para desenhar a vanguarda que Victor imprimiu na sua obra. Das 200 estampas diferentes feitas nos anos 70, quatro foram selecionadas para compor uma caixa com oito cartões. As demais, cujos direitos exclusivos pertencem à Special Gifts, empresa de empreendimentos culturais de Izabella Lucena, serão trabalhadas dentro do projeto LI.TER.ATO – Provocação Cultural em outros formatos ainda em estudo. Entre as propostas já em análise está a edição de um livro.
O Projeto LI.TER.ATO tem o objetivo de provocar a sociedade com criações secretas e inéditas utilizando textos e imagens de vários escritores, poetas e artistas plásticos pernambucanos ou radicados no estado, em formatos diferenciados.
Aos 74 anos de idade, Victor Moreira não pára de produzir. Está agora redesenhando cada uma das etapas de sua carreira para a composição de um arquivo completo sobre sua obra que será doado a universidades e será usado também para a confecção de um livro. “Eu quero terminar esse livro e poder pensar, “eu fiz alguma coisa” e oferecer a quem se interessar pelo trabalho que fiz na vida”, diz com sua voz mansa. Quem olha nos seus olhos, vê na cara que o tempo parece passar mais lentamente, mais ameno, para quem fabrica sonhos e faz arte brincando na seriedade da vida, ainda que alguns destes sonhos fiquem trancados em algum lugar escuro até que alguém ajude a trazê-los de volta à luz.
“Numa tarde de 2007, eu estava fazendo uma visita ao tio Victor e perguntei o que havia naquele baú que estava na minha frente, numa salinha bem charmosa que ele tem onde guarda seus preciosos biscuits franceses, sua coleção raríssima de discos de vinil e seus clássicos preferidos do cinema. Era um baú coberto de couro todo brochado, muito lindo. À minha pergunta ele respondeu rapidamente: “aí estão meus sonhos. Isto é o arquivo de meus sonhos”.
Pedi para mexer e, ele próprio, começou a tirar e a me mostrar umas lâminas de papel canson ilustradas em tinta guache com umas imagens lindas. Eu perguntei o que eram e ele explicou que foram as estampas que ele fez na época em que trabalhava na indústria têxtil e que nunca foram vistas. E por que você nunca mostrou? Perguntei-lhe. Ele disse que, ao encomendarem cinco ele preparava mais de 50. No horário comercial ele produzia para a indústria coisas bem comerciais e, à noite, em seu ateliê, na Avenida Ipiranga, em São Paulo, ele soltava a imaginação e produzia muito. Porém nem tudo seguia a rigidez da demanda comercial da época. Por isso ele guardava aquelas que fugiam do padrão para o seu deleite pessoal”, relembra Izabella Lucena.
O diploma de Victor Moreira é de dentista, na Carteira de Trabalho está registrado desenhista, mas seus passos caminham por tantas estradas ligadas à arte que fica difícil definir a sua profissão. Talvez apenas artista, sem mais explicações, seja a melhor forma de classificar essa incansável busca pela beleza. Quando questionado sobre qual foi a sua inspiração para criar as estampas que estavam ali guardadas, na época, ele responde que elas refletem os seus mais profundos desejos de liberdade de um tempo, “de liberdade de ir e vir, de criar, de ousar ser diferente”, enfatiza. Vale lembrar que a sede de liberdade no início dos anos 70 vinha revestida de uma força imensa, filha da luta contra uma Ditadura que matava a criatividade de muitos.
Foi cenógrafo e figurinista de produções como a opereta Bob e Bobete, de Valdemar de Oliveira, de 1977, entre outras encenações. “O teatro para mim é o templo da fantasia”, filosofa. Ele é citado nos livros sobre a história do teatro pernambucano “Memórias da Cena Pernambucana” 02 e 03, de Leidson Ferraz. Sua história faz parte do acervo do MISP - Museu da Imagem e do Som de Pernambuco. Foi membro fundador da STFN - Sociedade Teatral de Fazenda Nova, onde permaneceu como figurinista e cenógrafo por 50 anos, daí ser referência no livro do ator e diretor teatral Carlos Reis “Meio Século de Paixão” e também no livro “A Paixão de Plínio”, do premiado jornalista Jamildo Melo; e ainda no livro “Réu, Réu: Se Dessa Eu Escapei, Já Sei Que Vou Pro Céu”, da atriz Diva Pacheco. Recebeu prêmio vinculado à UNESCO como construtor da dança em Pernambuco e assim é também citado no livro “Flávia Barros”, do professor e dançarino Arnaldo Siqueira e professor Dr. Antônio Lopes.
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